Riscos para a agricultura

Agricultor explica porque abandonou cultivo de transgénicos

2012/07/21 - A revista The Organic and Non-GMO Report publica este mês uma entrevista com Wendel Lutz, um produtor americano que, após seis anos a cultivar soja transgénica, decidiu regressar à soja convencional. A desilução resultou sobretudo de dois fatores:

- as infestantes tornaram-se resistente ao Roundup (normalmente este herbicida mataria as ervas sem danificar a soja transgénica, mas com o aparecimento de resistência o químico já não faz efeito) e teve de começar a usar concentrações cada vez maiores;
- a produtividade da soja transgénica mais recente (Roundup Ready 2 Yield) era fraca.

Agora que a sua colheita é garantida sem transgénicos recebe um prémio adicional de 1,90 dólares por alqueire. Quanto aos transgénicos, não lhe deixaram saudades.

Que mal é que fazem os OGM?...

A Agricultura Biológica nasceu no pós II Grande Guerra em resposta a uma questão semelhante: que mal fazem os químicos? Essa resposta teve o apoio dos factos – os comprovativos da nocividade de adubos e pesticidas químicos para a alimentação e a saúde humanas – e o apoio dos consumidores.

Após a crise petrolífera, a grande indústria agroalimentar viu na investigação genética a possibilidade de investimento exclusivo, pela sua tecnicidade e pela possibilidade de patentear os produtos. Aconteceu em 1982 ser “pela 1ª vez patenteado um ser vivo: um rato transgénico com tendência para desenvolver cancros” (Ar Livre nº10, p. 9). A que se sucederam inúmeras outras patentes e inúmeros “acidentes”, ocultação de informação pelas empresas produtoras e financiamento de grupos de pressão e de instituições académicas e políticas.

Mas, afinal, que mal é que fazem os transgénicos?

Apareceu nova praga devido ao cultivo de milho transgénico

Striacosta albicosta

2010/12/31 - Nos Estados Unidos, o milho geneticamente modificado do tipo Bt-Cry1Ab (que produz uma determinada toxina insecticida, como o MON 810 que é cultivado em Portugal) está a ser infestado por uma nova praga, o "western bean cutworm" (Striacosta albicosta), um tipo de lagarta-de-rosca. Os problemas começaram a ser observados no ano 2000. Historicamente esta lagarta estava confinada a regiões muito limitadas do Oeste americano e não tinha impacto significativo no milho. Mas na última década este insecto alastrou para o Iowa, Minnesota, Illinois, Missouri, Indiana e Wisconsin e já está a causar impacto económico. Em 2009 foi detectado pela primeira vez no Canadá.

De acordo com a literatura científica, trata-se de um exemplo de "substituição de pragas", algo que também se verifica na agricultura intensiva com forte uso de pesticidas. Ou seja, ao eliminar um insecto (por causa da produção de Bt na planta transgénica), fica livre um "nicho" que depois é ocupado por um insecto de outra espécie, um concorrente. Porque o milho transgénico está a ser cultivado em vastíssimas áreas do território americano, esta lagarta-de-rosca está a espalhar-se na mesma proporção. A lição? Algo do género "tapou-se um buraco para abrir outro maior..."

Para saber mais leia este relatório: New Pest in Crop Caused by Large Scale Cultivation of Bt Corn.

Brasil: o início da inversão de marcha?


2010/11/09 - Depois de há uns meses atrás ter sido divulgado que os sojicultores brasileiros recebiam mais dinheiro por cultivar soja não transgénica mas que, por outro lado, as multinacionais lhes estavam a limitar drasticamente o acesso a esse tipo de sementes, alguma coisa começou a mudar.
O programa Soja Livre, agora lançado pelo governo federal, vai garantir a disponibilidade de semente não transgénica para evitar o futuro já descrito por um dos maiores produtores brasileiros de soja: "Em poucos anos estaremos simplesmente ou totalmente nas mãos das multinacionais que hoje trabalham com biotecnologia".
Com esta medida o estado brasileiro de Mato Grosso, que produz quase 30% de toda a soja brasileira, poderá atingir o objectivo de disponibilizar cerca de 70% da sua produção em versão não transgénica.
Claro que tudo isto depende igualmente da procura (sobretudo europeia) de produtos animais sem rações transgénicas. Vale pois a pena pedir no seu supermercado que comece a identificar quais marcas usam e não usam transgénicos na produção da sua carne, ovos, leite e lacticínios.

Sementes: O monopólio global

2010/10/07 - Segundo investigação desenvolvida por um professor da universidade americana do Michigan e divulgada hoje pelo The Ecologist, mostra de forma visual como o comércio mundial de sementes foi objecto de monopolização em pouco mais de dez anos. A figura acima (clicar na imagem para ver uma ampliação) mostra todas as empresas que têm sido compradas ou são controladas por apenas oito mega-multinacionais, sendo Monsanto de longe a maior das maiores. O mercado global é efectivamente dominado por apenas três empresas: Monsanto, DuPont e Syngenta.

Tamanha consolidação e, em particular, tamanha aceleração nas últimas décadas, não podia deixar de acarretar consequências. As principais, segundo o artigo de Philip Howard, são: menor diversidade de sementes disponíveis (nomeadamente menos variedades de sementes não transgénicas), menos agricultores a guardar as suas próprias sementes, e redução do investimento em sementes livres (a pesquisa deslocou-se das universidades para as empresas, que se concentram nas sementes com "direitos de autor").

As tendências futuras não são optimistas. Na ausência de uma grande intervenção estatal, as aquisições de empresas vão continuar e o oligopólio vai acentuar-se. O que é que vai sobrar do nosso direito a semear é algo que continuará em aberto.

Transgénicos: Maior produtividade pode ser a ruína

ACTUALIZAÇÃO EM SETEMBRO DE 2010 - Leia mais um documento detalhado sobre a negra realidade dos cultivos transgénicos em África: The Dirty Politics of the Global Grain Trade - GM Maize Farmers Face Ruin in SA


2010/05/17 - É uma realidade profundamente irónica, e triste: maiores produções podem realmente trazer a ruína aos agricultores. Desde 1994, quando começaram a ser cultivados, que os transgénicos prometem maiores produtividades. Mas onde eles podem estar associados a maior abundância o resultado está à vista, e é o oposto do esperado. Na África do Sul os produtores têm este ano a melhor produção dos últimos 28 anos devido a uma conjunção de bons factores climatéricos e sementes melhoradas (algumas das quais transgénicas), mas o que resulta disso é um abaixamento generalizado de preços no mercado e não um aumento do lucro. A agricultura é muito mais complexa do que a escolha das sementes a usar.

Notícia original: Price of Success for S. Africa Corn Farmers Is Ruin

A BASF perdeu o controlo


2010/09/08 - O primeiro ano de cultivo da batata transgénica Amflora, aprovada sob grande contestação pela Comissão Europeia há poucos meses, tornou-se já um exemplo paradigmático da impossibilidade de manter o controlo e impedir que os transgénicos errados vão parar ao sítio errado.
Há dois dias atrás surgia a notícia de que estava a ser cultivada na Suécia desde Junho uma variedade de batata transgénica não autorizada. Essa variedade era a Amadea, também da BASF, que apareceu misturada num campo de batatas Amflora. A descoberta da quebra na biossegurança, aparentemente, foi das autoridades suecas e não da BASF, que é a responsável pelo terreno.
Ou seja, a própria BASF não conseguiu controlar e manter separadas as suas variedades transgénicas, e depois não soube sequer fazer os testes adequados para detectar a contaminação. A única explicação dada até agora por uma responsável da BASF foi de que "tinham enviado as batatas erradas para a Suécia".
Os outros dois países onde a Amflora está a ser cultivada são a República Checa e a Alemanha. Este último anunciou hoje a suspensão da colheita de Amflora no Estado de Mecklenburg-Vorpommern, onde a colheita tinha começado no dia 31 de Agosto com grande fanfarra e a presença de ministro.
Se a BASF consegue tamanha confusão nos primeiros seis meses, onde estaremos daqui a seis anos?

O totobola dos transgénicos




Setembro de 2010 - A ciência, com todas as suas limitações, ainda assim não pára de acumular provas da instabilidade e imprevisibilidade das plantas transgénicas. Já se sabia que, quando as variedades transgénicas são criadas, se usam as variedades convencionais topo de gama como ponto de partida, e que portanto o aparente aumento de produtividade se deve de facto ao vigor dessas linhagens convencionais. Também se sabe que ao fim de algum tempo se instala a resistência, tanto em ervas daninhas como em insectos.

E agora cientistas suíços publicaram um trabalho que acrescenta mais alguns dados muito importantes. O que eles verificaram foi que, quando diferentes variedades transgénicas (de trigo, neste caso) com bons resultados em estufa eram cultivadas em campo aberto, tudo podia acontecer: quebras de produtividade (até 56%!) e maior susceptibilidade à doença (até 40 vezes mais!) foram os resultados mais dramáticos. Também encontraram uma quebra geral de vigor e maior vulnerabilidade aos stresses ambientais, para além de alterações na morfologia.

O que estes resultados mostram é que o processo de manipulação genética afectou profundamente a constituição da planta, de formas que só se tornam visíveis quando determinadas condições estão reunidas. Ou seja, um transgénico pode ter um comportamento relativamente normal... até ao dia em que muda um qualquer factor ambiental e a produtividade (ou outro aspecto importante) colapsa ou se torna deficiente.

Como é que podemos colocar a futura subsistência alimentar da espécie humana a depender de plantas com comportamento tão aleatório? Como é que podemos continuar a aprovar transgénicos para cultivo sem os sujeitar a pelo menos alguns testes de stress?

Eis o artigo científico respectivo: Transgene x Environment Interactions in Genetically Modified Wheat.

43 proteínas!


Setembro 2010 - Quem não ouviu já dizer que os transgénicos são iguais à planta original mais uma única proteína, a transgénica? Pois bem, nada poderia estar mais longe da verdade. Um trabalho realizado por equipas de duas universidade italianas revelou que, no caso do milho transgénico MON 810 (o mesmo que é cultivado em Portugal), a manipulação genética introduz uma profusão de alterações, para além de acrescentar a proteína nova propriamente dita. Foram detectadas mudanças nos níveis de expressão de 43 proteínas! Estas alterações - totalmente inesperadas - são atribuídas pelos cientistas ao processo de introdução do transgene. Um pouco como uma bomba atira estilhaços, também a entrada do transgene cria interferências em muitos outros pontos do genoma. Isto não prova que este transgénico represente um risco para a saúde, note-se, mas certamente prova que é claramente diferente da variedade de controlo. E isso é precisamente o que a indústria e a EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) se recusam a admitir.

Eis o artigo: Proteomics as a Complementary Tool for Identifying Unintended Side Effects Occurring in Transgenic Maize Seeds As a Result of Genetic Modifications.

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