Foi publicado em Agosto de 2005 um estudo científico realizado em Portugal cuja conclusão teve eco em vários jornais: os alimentos transgénicos (foram testados cinco transgénicos, quatro tipos de milho e um tipo de soja) não causam alergias e são assim seguros nesse aspecto. Boas notícias, portanto. Mas, infelizmente, a história não acaba aqui. Embora seja fundamental fazer investigação científica nesta área, isso não significa que todos os artigos científicos representem um bom trabalho. E este trabalho sofre de um pecado mortal.
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O problema, que afecta todo o artigo e invalida inevitavelmente as suas conclusões, tem a ver com a forma como se testam alergias. Para saber se uma pessoa é alérgica a algum alimento, essa pessoa tem de ser exposta a esse alimento: tem de o comer! Só depois se pode ir medir a sua eventual alergenicidade, o que é feito através da reacção de anticorpos que serão formados precisamente quando a pessoa comer esse produto pela primeira vez.
Então qual foi o problema? Neste artigo os cientistas ASSUMIRAM que as pessoas já tinham comido milho/soja transgénicos. É mesmo esta a palavra usada no artigo: "assumimos". Não deram os transgénicos a comer às pessoas. Partiram do princípio de que elas já os tinham comido, algum dia, nalguma circunstância, nalguma quantidade. Mas sem apresentar quaisquer dados sobre se os produtos com milho e soja que essas pessoas possam ter comido teriam de facto proveniência transgénica.
Em Portugal está em vigor o Regulamento Europeu 1830/2003 que obriga à rotulagem dos produtos alimentares que contenham transgénicos. Por isso, no supermercado, podemos saber se os corn flakes são ou não transgénicos, por exemplo. E o que é que encontramos no supermercado? Apenas algumas marcas de óleo de soja transgénico (talvez o menos alergénico de todos os produtos de soja). Não se encontram produtos com milho transgénico, nem com soja transgénica que inclua também a parte proteica. Então como é que as pessoas podem ter ganho alergias aos transgénicos? Mistério, que este artigo não explica.
Conclusão: foram ver se as pessoas tinham alergia... sem confirmar se as pessoas tinham tido oportunidade de a ganhar. Brilhante.
NOTA: Para ler o artigo referido clique aqui.