Riscos para a agricultura

Apareceu nova praga devido ao cultivo de milho transgénico

Striacosta albicosta

Nos Estados Unidos, o milho geneticamente modificado do tipo Bt-Cry1Ab (que produz uma determinada toxina insecticida, como o MON 810 que é cultivado em Portugal) está a ser infestado por uma nova praga, o "western bean cutworm" (Striacosta albicosta), um tipo de lagarta-de-rosca. Os problemas começaram a ser observados no ano 2000. Historicamente esta lagarta estava confinada a regiões muito limitadas do Oeste americano e não tinha impacto significativo no milho. Mas na última década este insecto alastrou para o Iowa, Minnesota, Illinois, Missouri, Indiana e Wisconsin e já está a causar impacto económico. Em 2009 foi detectado pela primeira vez no Canadá.

De acordo com a literatura científica, trata-se de um exemplo de "substituição de pragas", algo que também se verifica na agricultura intensiva com forte uso de pesticidas. Ou seja, ao eliminar um insecto (por causa da produção de Bt na planta transgénica), fica livre um "espaço" que depois é ocupado por um insecto de outra espécie, um concorrente. Porque o milho transgénico está a ser cultivado em vastíssimas áreas do território americano, esta lagarta-de-rosca está a espalhar-se na mesma proporção. A lição? Algo do género "tapou-se um buraco para abrir outro maior..."

Para saber mais leia este relatório: New Pest in Crop Caused by Large Scale Cultivation of Bt Corn.

Brasil: o início da inversão de marcha?


2010/11/09 - Depois de há uns meses atrás ter sido divulgado que os sojicultores brasileiros recebiam mais dinheiro por cultivar soja não transgénica mas que, por outro lado, as multinacionais lhes estavam a limitar drasticamente o acesso a esse tipo de sementes, alguma coisa começou a mudar.
O programa Soja Livre, agora lançado pelo governo federal, vai garantir a disponibilidade de semente não transgénica para evitar o futuro já descrito por um dos maiores produtores brasileiros de soja: "Em poucos anos estaremos simplesmente ou totalmente nas mãos das multinacionais que hoje trabalham com biotecnologia".
Com esta medida o estado brasileiro de Mato Grosso, que produz quase 30% de toda a soja brasileira, poderá atingir o objectivo de disponibilizar cerca de 70% da sua produção em versão não transgénica.
Claro que tudo isto depende igualmente da procura (sobretudo europeia) de produtos animais sem rações transgénicas. Vale pois a pena pedir no seu supermercado que comece a identificar quais marcas usam e não usam transgénicos na produção da sua carne, ovos, leite e lacticínios.

Sementes: O monopólio global

2010/10/07 - Segundo investigação desenvolvida por um professor da universidade americana do Michigan e divulgada hoje pelo The Ecologist, mostra de forma visual como o comércio mundial de sementes foi objecto de monopolização em pouco mais de dez anos. A figura acima (clicar na imagem para ver uma ampliação) mostra todas as empresas que têm sido compradas ou são controladas por apenas oito mega-multinacionais, sendo Monsanto de longe a maior das maiores. O mercado global é efectivamente dominado por apenas três empresas: Monsanto, DuPont e Syngenta.

Tamanha consolidação e, em particular, tamanha aceleração nas últimas décadas, não podia deixar de acarretar consequências. As principais, segundo o artigo de Philip Howard, são: menor diversidade de sementes disponíveis (nomeadamente menos variedades de sementes não transgénicas), menos agricultores a guardar as suas próprias sementes, e redução do investimento em sementes livres (a pesquisa deslocou-se das universidades para as empresas, que se concentram nas sementes com "direitos de autor").

As tendências futuras não são optimistas. Na ausência de uma grande intervenção estatal, as aquisições de empresas vão continuar e o oligopólio vai acentuar-se. O que é que vai sobrar do nosso direito a semear é algo que continuará em aberto.

Transgénicos: Maior produtividade pode ser a ruína

ACTUALIZAÇÃO EM SETEMBRO DE 2010 - Leia mais um documento detalhado sobre a negra realidade dos cultivos transgénicos em África: The Dirty Politics of the Global Grain Trade - GM Maize Farmers Face Ruin in SA


2010/05/17 - É uma realidade profundamente irónica, e triste: maiores produções podem realmente trazer a ruína aos agricultores. Desde 1994, quando começaram a ser cultivados, que os transgénicos prometem maiores produtividades. Mas onde eles podem estar associados a maior abundância o resultado está à vista, e é o oposto do esperado. Na África do Sul os produtores têm este ano a melhor produção dos últimos 28 anos devido a uma conjunção de bons factores climatéricos e sementes melhoradas (algumas das quais transgénicas), mas o que resulta disso é um abaixamento generalizado de preços no mercado e não um aumento do lucro. A agricultura é muito mais complexa do que a escolha das sementes a usar.

Notícia original: Price of Success for S. Africa Corn Farmers Is Ruin

A BASF perdeu o controlo


2010/09/08 - O primeiro ano de cultivo da batata transgénica Amflora, aprovada sob grande contestação pela Comissão Europeia há poucos meses, tornou-se já um exemplo paradigmático da impossibilidade de manter o controlo e impedir que os transgénicos errados vão parar ao sítio errado.
Há dois dias atrás surgia a notícia de que estava a ser cultivada na Suécia desde Junho uma variedade de batata transgénica não autorizada. Essa variedade era a Amadea, também da BASF, que apareceu misturada num campo de batatas Amflora. A descoberta da quebra na biossegurança, aparentemente, foi das autoridades suecas e não da BASF, que é a responsável pelo terreno.
Ou seja, a própria BASF não conseguiu controlar e manter separadas as suas variedades transgénicas, e depois não soube sequer fazer os testes adequados para detectar a contaminação. A única explicação dada até agora por uma responsável da BASF foi de que "tinham enviado as batatas erradas para a Suécia".
Os outros dois países onde a Amflora está a ser cultivada são a República Checa e a Alemanha. Este último anunciou hoje a suspensão da colheita de Amflora no Estado de Mecklenburg-Vorpommern, onde a colheita tinha começado no dia 31 de Agosto com grande fanfarra e a presença de ministro.
Se a BASF consegue tamanha confusão nos primeiros seis meses, onde estaremos daqui a seis anos?

O totobola dos transgénicos




Setembro de 2010 - A ciência, com todas as suas limitações, ainda assim não pára de acumular provas da instabilidade e imprevisibilidade das plantas transgénicas. Já se sabia que, quando as variedades transgénicas são criadas, se usam as variedades convencionais topo de gama como ponto de partida, e que portanto o aparente aumento de produtividade se deve de facto ao vigor dessas linhagens convencionais. Também se sabe que ao fim de algum tempo se instala a resistência, tanto em ervas daninhas como em insectos.

E agora cientistas suíços publicaram um trabalho que acrescenta mais alguns dados muito importantes. O que eles verificaram foi que, quando diferentes variedades transgénicas (de trigo, neste caso) com bons resultados em estufa eram cultivadas em campo aberto, tudo podia acontecer: quebras de produtividade (até 56%!) e maior susceptibilidade à doença (até 40 vezes mais!) foram os resultados mais dramáticos. Também encontraram uma quebra geral de vigor e maior vulnerabilidade aos stresses ambientais, para além de alterações na morfologia.

O que estes resultados mostram é que o processo de manipulação genética afectou profundamente a constituição da planta, de formas que só se tornam visíveis quando determinadas condições estão reunidas. Ou seja, um transgénico pode ter um comportamento relativamente normal... até ao dia em que muda um qualquer factor ambiental e a produtividade (ou outro aspecto importante) colapsa ou se torna deficiente.

Como é que podemos colocar a futura subsistência alimentar da espécie humana a depender de plantas com comportamento tão aleatório? Como é que podemos continuar a aprovar transgénicos para cultivo sem os sujeitar a pelo menos alguns testes de stress?

Eis o artigo científico respectivo: Transgene x Environment Interactions in Genetically Modified Wheat.

43 proteínas!


Setembro 2010 - Quem não ouviu já dizer que os transgénicos são iguais à planta original mais uma única proteína, a transgénica? Pois bem, nada poderia estar mais longe da verdade. Um trabalho realizado por equipas de duas universidade italianas revelou que, no caso do milho transgénico MON 810 (o mesmo que é cultivado em Portugal), a manipulação genética introduz uma profusão de alterações, para além de acrescentar a proteína nova propriamente dita. Foram detectadas mudanças nos níveis de expressão de 43 proteínas! Estas alterações - totalmente inesperadas - são atribuídas pelos cientistas ao processo de introdução do transgene. Um pouco como uma bomba atira estilhaços, também a entrada do transgene cria interferências em muitos outros pontos do genoma. Isto não prova que este transgénico represente um risco para a saúde, note-se, mas certamente prova que é claramente diferente da variedade de controlo. E isso é precisamente o que a indústria e a EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar) se recusam a admitir.

Eis o artigo: Proteomics as a Complementary Tool for Identifying Unintended Side Effects Occurring in Transgenic Maize Seeds As a Result of Genetic Modifications.

O custo escondido de ser transgénico

Setembro de 2010 - Quando uma planta é alterada por engenharia genética e começa a produzir uma proteína transgénica, o seu metabolismo paga um preço. Este é talvez dos segredos mais bem guardados no comércio de transgénicos: quem é que gostaria de dizer que está a vender sementes mais "fracas" que o normal? Mas quando se fazem experiências minuciosas é isso mesmo que se encontra.
Em artigo científico recentemente publicado, especialistas chineses estudaram o impacto da engenharia genética em diferentes variedades transgénicas de arroz quando comparadas com uma variedade controlo não transgénica. E, quando as condições são exactamente iguais (no mesmo terreno, sem carga de insectos, etc), as variedades transgénicas podem produzir até 56% menos arroz do que o controlo. As explicações dos autores para estes resultados são de dois tipos: primeiro, ao produzir a proteína transgénica, fica menos energia disponível para produzir os bagos de arroz; e segundo, o processo de introdução do transgene pode interferir com os genes já existentes na planta e assim desestabilizá-la de diferentes formas, enfraquecendo-a. Os autores concluem com uma recomendação para a indústria dos transgénicos: precisam de "melhorar" a sua tecnologia!

O artigo pode ser descarregado aqui: Yield Benefit and Underlying Cost of Insect-resistance Transgenic Rice - Implication in Breeding and Deploying Transgenic Crops

Colza: A invasão

2010/08/06 - Foram hoje apresentados no congresso anual da Sociedade Americana de Ecologia os resultados de um trabalho de investigação relativo ao aparecimento de colza (um tipo de couve) transgénica em zonas não cultivadas. Os cientistas percorreram cerca de 5 mil quilómetros de estradas no estado do Dakota do Norte e a cada oito quilómetros recolheram amostras das ervas em estado selvagem que encontraram. Quarenta e seis por cento dessas amostras continham colza e, dentro das que continham colza, 80% continham colza transgénica. Esta colza GM era sobretudo de variedades da Monsanto, havendo também da Bayer. O mais interessante neste estudo foi o facto de terem sido encontradas plantas duplamente resistentes: com um transgene para o herbicida da Monsanto e outro para o da Bayer – algo que não existe no mercado.

O que significam estes resultados?

Primeiro, que a colza transgénica sobrevive bem sem a ajuda de ninguém: foram encontradas plantas na beira das estradas e terrenos agrícolas abandonados, mas também em estações de serviço, cemitérios, campos de bola e muitas outras zonas a grande distância de qualquer campo de colza.

Segundo, a colza transgénica não só sobrevive como se instala com à vontade e, ao longo de várias gerações, espalha os seus transgenes - só isso explica o aparecimento de plantas duplamente resistentes. E outras espécies selvagens "primas" da colza podem facilmente adquirir estes transgenes.

Terceiro, estas plantas já não podem ser combatidas pelos herbicidas mais usados, o que as pode transformar em invasoras agrícolas de difícil controlo.

Quarto, o nível de contaminação generalizada encontrado mostra que a regulamentação americana que é suposta evitar tal fenómeno não está a funcionar ou é muito insuficiente.

Quinto, ninguém sabe o que é que a introdução destes transgenes vai implicar ou alterar no equilíbrio dos ecossistemas onde aparecerem. E os ecossistemas já estão, em geral, tão stressados, que qualquer novo stress pode ser a gota de água.

E sexto, a indústria enganou-se. Segundo, por exemplo, o Dr Julian Little, do lobby pró-transgénicos Agricultural Biotechnology Council, "As plantas transgénicas são produções humanas e quando toca a competir com as suas homólogas selvagens não se dão nada bem". Este estudo, que encontrou comunidades bem instaladas de colza transgénica, vem demonstrar o contrário.

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