Glifosato: Chegou a hora

Glifosato - o herbicida mais usado em Portugal e no mundo – é um bom exemplo dos conflitos da era em que vivemos. Representa ao mesmo tempo a libertação do trabalho mais penoso na produção agrícola (o controle de ervas) graças ao seu baixo preço e simplicidade de aplicação e, por outro lado, despoletou a maior mobilização cidadã a nível mundial para exigir a proibição imediata de um pesticida.

Este conflito aparente entre consumidores e agricultores foi desencadeado a 20 de março de 2015 quando a IARC, uma agência da Organização Mundial de Saúde, anunciou publicamente que o glifosato causava cancro em animais de laboratório (e provavelmente em pessoas também). Desde então outras agências têm chegado à conclusão oposta mas, ao contrário da IARC, nenhuma excluiu dos seus pareceres todos os cientistas em conflito de interesses. Na prática isto aponta para uma dupla personalidade da ciência: a que procura a verdade independente e a que se deixa condicionar pelo poder do dinheiro.

A ciência condicionada tem sustentado a narrativa da Monsanto, empresa detentora da patente inicial sobre o glifosato e ainda agora uma das grandes produtoras mundiais (em 2015 os herbicidas à base de glifosato renderam quatro mil milhões de euros em vendas e mais de mil milhões em lucros, só à Monsanto). Mas há momentos, raros, em que a pressão do dinheiro já não é suficiente para impedir o tsunami das evidências acumuladas, das vivências empíricas, das revoltas dos cancerosos, das alternativas sustentáveis... e o sentido de urgência e mudança iminente instala-se.

Só em 2018 a Monsanto perdeu três batalhas judiciais cruciais: não conseguiu impedir que o estado americano da Califórnia classificasse o glifosato como carcinogénico, tentou silenciar a rede ativista Avaaz sem sucesso, e foi condenada num caso que fez história (e vai fazer jurisprudência) onde não só se deu como provada a relação entre o herbicida e o cancro do queixoso como se estabeleceu que a empresa agiu de má fé, escondendo os efeitos nefastos para a saúde que as suas pesquisas internas há muito tinham revelado. Daqui a 8000 processos (que correm atualmente nos Estados Unidos, mais três em França) poucos detalhes irão ficar por esclarecer.

À medida que a verdade inconveniente se impõe as escolhas a nível nacional ficam cada vez mais estreitas. Ao fim de mais de uma década em que, apesar de testarem mais de 300 pesticidas anualmente, os sucessivos governos conseguiram ignorar o glifosato, começaram as análises, lentamente, tanto em alimentos como na água de consumo. O solo português, sabe-se desde 2017, é o mais contaminado dos que já foram testados na União Europeia. E em 2016 numa iniciativa de ciência cidadã tinha-se descoberto com grande surpresa que a contaminação de uma pequena amostra de voluntários estava muito acima de valores europeus: o português menos contaminado tinha três vezes mais glifosato que o pior caso num estudo alemão comparável. Além disso, o tipo de cancro implicado na exposição ao glifosato está a aumentar na população nacional.

Ninguém quer comida com pesticidas em geral, e herbicidas em particular. Os agricultores, esses, de bom grado abandonariam a aplicação de químicos tóxicos se lhes fosse proposta uma alternativa economicamente viável. Mas as medidas agroambientais de apoio a uma produção mais ecológica já há anos são desbaratadas indiscriminadamente em vez de efetivamente compensarem quem pretende afastar-se da guerra química e começar a trabalhar em sintonia com a Natureza.

Um primeiro sinal de bom senso governativo seria a proibição de venda de glifosato a não profissionais (atualmente o Roundup, uma versão comercial, pode ser comprado livremente em qualquer supermercado). Depois devia generalizar-se a todo o país o que alguns municípios pioneiros já demonstraram: é possível passar sem herbicidas na limpeza de ruas e outros espaços urbanos. E finalmente, se e quando houver determinação para levar a sério os interesses da sociedade em cujo nome governa, o Ministério da Agricultura pode impor um prazo na transição para o futuro pós-glifosato, tal como a França já anunciou. Todos, agricultores incluídos, têm a ganhar com isso. Só o lucro das vendas vai baixar... e isso é a melhor evidência de que a hora da mudança já soou.

Margarida Silva, bióloga
2018/11/09

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